Antes de virar grão, o café é uma fruta. Uma cereja pequena, vermelha ou amarela, com açúcar, polpa e casca. O que acontece entre a colheita e a secagem dessa fruta, o chamado processamento pós-colheita, é uma das variáveis que mais mudam o sabor da xícara.

Dois cafés da mesma fazenda, da mesma variedade, colhidos no mesmo dia, podem chegar à sua mesa completamente diferentes só por causa do processo. É por isso que ele aparece na ficha técnica de todos os nossos cafés.

Primeiro: o que tem dentro da cereja

Para entender os processos, vale conhecer as camadas da fruta, de fora para dentro:

  • Casca: a pele fina e colorida.
  • Polpa: a parte carnosa, doce.
  • Mucilagem: uma camada pegajosa e muito açucarada, grudada no grão. É o "mel" do café.
  • Pergaminho: uma película protetora que envolve o grão.
  • Grão: a semente. É ela que é torrada.

Camadas da cereja do café: casca, polpa, mucilagem, pergaminho e grão

A grande diferença entre os processos é quanto da fruta continua em contato com o grão enquanto ele seca. Quanto mais fruta, mais doçura e notas frutadas tendem a aparecer. Quanto menos, mais limpa e clara fica a xícara.

Comparativo do que seca junto com o grão em cada processo: natural, cereja descascado, honey e lavado

Natural: o grão seca dentro da fruta

É o método mais antigo. A cereja é colhida e vai inteira para secar ao sol, em terreiros ou camas suspensas. Durante várias semanas, os frutos são revolvidos com frequência para secar por igual e não fermentar demais.

Como o grão passa todo esse tempo envolto na polpa, ele absorve parte dos açúcares da fruta. O resultado costuma ser uma bebida doce, de corpo marcante e notas frutadas.

Na Phi, o Café Áurea (pêssego, pudim e flor de laranjeira) e o Café Logarítmico (chocolate amargo, caramelo e amêndoas) são naturais. Repare como o mesmo processo pode levar a caminhos diferentes: um vai para as frutas e flores, o outro para o chocolate.

Lavado: a precisão da água

Aqui, a casca e a polpa são retiradas logo depois da colheita. O grão, ainda coberto de mucilagem, fica em tanques com água, onde fermenta até essa camada se soltar. Depois é lavado e só então vai secar.

Sem a fruta durante a secagem, o que aparece é o café "em estado puro": acidez mais evidente, xícara limpa e notas bem definidas. É o processo que mais deixa transparecer a origem e a variedade.

Honey: entre o natural e o lavado

No honey, a casca e a polpa são removidas, mas a mucilagem fica grudada no grão durante a secagem. O nome vem dessa camada pegajosa, que lembra mel (o café não leva mel nenhum).

Conforme a quantidade de mucilagem mantida e o jeito de secar, o honey ganha nomes de cores: yellow (menos mucilagem, secagem mais rápida), red e black (mais mucilagem, secagem lenta e protegida do sol). Em geral, quanto mais escuro o honey, mais doçura e corpo.

Cereja descascado: uma invenção brasileira

Muito usado no Brasil, o cereja descascado (CD) passa os frutos por um equipamento que retira a casca e parte da polpa. O grão vai secar com a mucilagem, como num honey.

Como a casca sai antes, a secagem é mais rápida e o risco de fermentação indesejada cai bastante, o que faz dele uma ótima escolha para regiões mais úmidas. A bebida costuma ser doce, equilibrada e limpa, a meio caminho entre o natural e o lavado.

Fermentado: a fronteira do sabor

Toda fruta fermenta. A diferença, aqui, é que a fermentação deixa de ser um acaso e passa a ser controlada: os produtores acompanham tempo, temperatura e ambiente, e muitas vezes usam leveduras ou bactérias selecionadas para conduzir o processo. Pode ser feito em tanques fechados, sem oxigênio, ou com a cereja inteira.

O resultado são cafés com perfis bem marcantes: frutas vermelhas intensas, notas vinhosas, acidez vibrante. São cafés que surpreendem.

Na Phi, os dois fermentados vêm da Fazenda Jangada, em Cabo Verde (MG), do produtor Ivan Santana: o Café Fermat, com amoras silvestres, framboesa e guaraná, e o Café Complexo, com maçã verde, mel e frutas vermelhas.

Café Fermat, fermentado
Café Fermat
Café Complexo, fermentado
Café Complexo

Resumo da equação

Processo O que seca junto com o grão Tende a ter
Natural A fruta inteira Doçura, corpo, notas frutadas
Honey A mucilagem Doçura complexa, corpo médio a alto
Cereja descascado A mucilagem (casca retirada) Equilíbrio, doçura, xícara limpa
Lavado Só o pergaminho Acidez clara, notas definidas
Fermentado Varia; a fermentação é controlada Perfis intensos e surpreendentes

Uma ressalva importante: o processo é uma tendência, não uma regra. Variedade, altitude, clima e a torra também entram na conta. Mas saber ler o processo na ficha técnica já ajuda muito a escolher um café que combine com você.

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Na Phi, escolhemos cada lote pelo que ele entrega na xícara. O processo é uma das partes da equação, e a gente faz questão de mostrá-lo em cada café.